Uma nova dívida para pagar outra

Pesquisa mostra que maioria dos empréstimos consignados é para pagar outra dívida mais cara e antiga

Não é preciso nem mais ir aos bancos e financeiras, já que eles mesmos sempre procuram os clientes, como aposentados, para oferecer empréstimos consignados. É o que garante a aposentada Nedy Figueiredo de Castro, que hoje paga quatro empréstimos, que consomem praticamente metade de seu benefício. “A tentação é muito grande e parece que eles adivinham quando a gente está precisando.”

Ela conta que, para reduzir os juros, hoje de pouco mais de 1% ao mês, fez a portabilidade dos empréstimos, que foram contraídos para quitar dívidas, pagar prestações de carro e ajudar familiares que enfrentam alguma dificuldade. “A vantagem é o juro baixo. O problema é que você recebe o salário bem mais baixo e precisa fazer outra dívida depois.”

Uma pesquisa do Portal Meu Bolso Feliz, iniciativa de Educação Financeira do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), revela que três em cada dez brasileiros (34%) fizeram empréstimos consignados. A maioria recorre ao consignado para pagar dívidas de outros empréstimos, como as do cartão de crédito (veja quadro), enquanto outros usam os recursos para comprar eletrodomésticos e móveis, por exemplo, e pagar contas como aluguel, condomínio, luz, telefone e escola.

SALÁRIO MENOR

Como as prestações são descontadas diretamente no salário ou aposentadoria, o risco da operação é muito baixo para a instituição, que pode cobrar taxas mais baixas que em outras linhas. Para os servidores do Estado, por exemplo, os juros partem de 1,27% ao mês. “O consignado tem a vantagem de juros mais baixos. Por outro lado, a pessoa precisa aprender a conviver com um salário ou renda menor”, alerta o educador financeiro do SPC Brasil, José Vignoli.

Por isso, ele adverte que o crédito consignado deve ser buscado em situações de sufoco, como pagar uma dívida muito cara, como o rotativo do cartão de crédito, ou em situações de grande emergência. O presidente da Federação das Associações de Aposentados e Pensionistas de Goiás, José Rosa Flávio, diz que é contra o empréstimo, porque os benefícios são inferiores aos malefícios.

“Tem gente que não consegue nem mais comprar remédios porque os consignados já comprometeram quase toda a renda”, conta José Rosa. Além disso, segundo ele, muitos aposentados ainda são vítimas de falcatruas, como empréstimos concedidos ou renovados sem o conhecimento do beneficiário. “Já chegamos a pedir ao INSS para fiscalizar isso mais de perto”.

Para José Rosa, a rede bancária também precisa ser mais comprometida com essa fiscalização, pois acaba sendo conivente. O empréstimo só pode ser concedido para o próprio titular, dependendo de sua condição de saúde, como a mental. “Sei que é difícil interferir na vontade do tomador, mas é preciso ser mais seletivo na concessão”, alerta.

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos do Estado, Mateus Correa da Silva, mesmo com as taxas menores que em outras operações, os juros ainda são muito elevados e penalizam os beneficiários do INSS. Segundo ele, a maioria recebe apenas um salário mínimo e consegue pegar R$ 2 mil com a maior facilidade, sem contar aqueles que são vítimas de fraudes.

Fonte: O Popular

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