Melhora da indústria em abril deve resultar em crescimento do PIB, diz economista

A alta do dólar não deve ajudar a indústria, como veem alguns empresários

O economista Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, crê que o PIB irá crescer um pouco mais no segundo trimestre –ajudado pela indústria, que foi bem em abril.

Mas vê a alta de abril do setor “mais como pontual” e sob impacto de setores como muito peso –como o de veículos, que não “deve ter um crescimento tão espetacular em maio”.

“Ainda é cedo para falar em resultados muito fortes para este trimestre”, disse Vale. Sua projeção é de um crescimento de 0,7% do PIB no segundo trimestre. A expansão foi de 0,6% nos três primeiros meses do ano.

Para o economista, a alta do dólar não deve ajudar a indústria, como veem alguns empresários. “O câmbio depreciado tem impacto [no custo] da importação de insumos e bens de capital também. Fica mais barato para exportar [produtos fabricados no Brasil], mas fica mais caro para produzir. É uma ilusão acreditar que câmbio é salvação para a indústria.”

Vale afirma que o dado positivo foi o crescimento do investimento, sinalizado pela expansão da produção de bens de capital (máquinas e equipamentos) há quatro meses seguidos e “mais disseminada” em abril.

“Vai na linha da nossa previsão de expansão de 5% do investimento neste ano.”

Falta, porém, uma política pró-investimento do governo, e menos errática, afirma. Ele cita a decisão de alta dos juros, que subiram acima do previsto “porque, de repente, [a presidente Dilma] ficou preocupada com a inflação” [que já vinha em pressionada há meses].

Vale é economista formado pela USP, com mestrado em economia pela mesma instituição. Também obteve o mesmo título em pela Universidade de Wisconsin Madison, dos EUA.

A seguir, a íntegra da entrevista:

Folha – Esse dado da indústria, a segunda alta seguida na comparação com o mês anterior e com forte crescimento de 8,4% ante abril de 2012, pode ser traduzido com uma sinal de retomada mais firme do setor ou é algo pontual?

Sérgio Vale – Tendo a ver como algo mais pontual. O dado de indústria do IBGE sofre muito impacto por setores específicos que têm muito peso, como automóveis, e variação de dias úteis. Em abril, tivemos dois dias úteis a mais do que abril do ano passado. Em maio, será um dia útil a menos e não sei se a produção de automóveis terá um crescimento tão espetacular como foi em abril. Mas há alguns bons sinais que são relevantes, como o crescimento de quase 10% na construção civil. O Brasil não consegue importar tudo e depois de anos com a indústria de lado [baixo crescimento] é natural que alguma reação ocorra.

O resultado melhor da indústria, e sobretudo do investimento –com a produção maior de máquinas e equipamentos–, é um sinal de alento após o PIB do primeiro trimestre ter ficado abaixo de todas as expectativas, inclusive as do governo? Dá para prever um PIB mais forte no segundo trimestre?

Diria que a tendência é termos um PIB crescendo mais no segundo trimestre do que no primeiro. Esse dado da indústria é importante, mas minha experiência com esses números diz que depois de uma expansão tão forte [como a de abril], em geral, há uma queda acentuada no mês seguinte. Ou seja, ainda é cedo para falar em resultados muito fortes para este trimestre. Vale lembrar que agropecuária teve um crescimento muito forte no trimestre passado e isso tende a ser revertido em parte neste trimestre. De qualquer maneira, para dar os 2,5% de PIB que esperamos para esse ano contamos com uma recuperação gradual, com 0,7% de expansão no 2º trimestre e 1% em cada um dos últimos trimestres do ano. Vale lembrar também que quase 50% da exportação de manufaturados é para países e regiões em dificuldades, como Argentina, Venezuela e Europa. Dado que há grande risco ainda de piora especialmente dos dois latino-americanos, temos de considerar que a recuperação da indústria ainda é muito frágil.

A recente mudança na taxa de câmbio, com a alta do dólar, pode ter impacto na indústria?

Não vejo assim, pois câmbio depreciado tem impacto [no custo] da importação de insumos e bens de capital. Fica mais barato para exportar [produtos fabricados no Brasil], mas fica mais caro para produzir. É uma ilusão que a indústria ainda tem em acreditar que câmbio é salvação. Isso valia na época em que as cadeias de produção não eram internacionalizadas como são agora. O que esse câmbio vai trazer é apenas um pouco mais de inflação.

A quarta alta consecutiva na produção de de bens de capital [máquinas e equipamentos usados na fabricação de outros bens, na construção, agropecuária e no transporte] mostra uma melhora continuada do investimento e um crescimento com mais qualidade?

Esse número foi importante e mais disseminado [entre os tipos de bens de capital] do que vinha nos números anteriores. Vai em linha com a expectativa de expansão de investimentos de 5% este ano. Agora, continua valendo que o governo não é pró-investimento. Ele apenas parece ser, mas suas políticas nesse sentido continuam sendo erráticas e muito ao bel-prazer da presidente. Veja a decisão de juros, feita como uma vontade da presidente porque ela, de repente, ficou preocupada com a inflação. Quem quer investir pensa duas vezes antes de gastar seu capital num país que ainda pode ter quase seis anos desse tipo de política tortuosa.

Fonte: Folha Online

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