SINDICATO DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS METALÚRGICAS, MECÂNICAS E DE MATERIAL ELÉTRICO DE GOIÂNIA – SINDMETAL – GO

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Falta de qualificação trava indústria

Sem pessoal qualificado, indústria goiana adia projetos e freia a produção, segundo a Fieg

Ricardo César

Máquinas longe de atingirem produtividade máxima, projetos adiados e empresários preocupados. Esse é o cenário vivido pela indústria goiana, por causa da falta de mão de obra qualificada. Em 72,5% das empresas em Goiás existem vagas, mas não há pessoal preparado, segundo a pesquisa Sondagem Industrial Especial, divulgada ontem pela Federação das Indústrias de Goiás (Fieg).

Com maior produtividade e necessidade de contratação crescente, as indústrias de grande porte são as mais atingidas: 86,7% têm de colocar o pé no freio de novos projetos e expansão por conta da falta de pessoal qualificado. Nas pequenas, cerca de 75% admitem o problema, enquanto a ocorrência cai para de 57,1% entre as médias.

Para se ter noção da gravidade, quase 10 mil novos trabalhadores qualificados serão demandados pela indústria goiana neste ano, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Todos com especialização em alguma área do processo de produção industrial: mecânicos, lanterneiros, soldador, técnicos. A demanda surge de um setor com peso na economia: responsável por 30% dos empregos formais do Estado (308.194 de 1.040.275 postos), conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho (MTE), e por 27,5% das riquezas de Goiás em 2008.

Apesar da expressividade, o quadro de funcionários não consegue acompanhar o avanço da demanda. Nesse processo, o desenvolvimento de 48,3% das indústria acaba afetado. Na empresa Al Plastic, do ramo de plástico, um exemplo claro. No mercado há nove anos, o empresário Aurelino Antônio dos Santos, de 60 anos, diz que o déficit de mão de obra qualificada é responsável pela estagnação de 20% da produção. Ou seja, se as 50 vagas abertas ao ano fossem ocupadas, a expansão da produção seria de 20%.

Conforme o empresário, as escolas de formação técnica não conseguem suprir o mercado. Os profissionais especializados estão empregados e há dificuldade para atraí-los com melhores ofertas. “Esse é o grande entrave da indústria goiana hoje: mão de obra qualificada. Temos potencial para crescer, com matéria-prima e aquisição de maquinário. Mas nos falta gente que saiba fazer para expandir”, atesta. O problema não é exclusivo da indústria de plástico: 46,6% dos 128 empresários entrevistados pela Fieg relatam o mesmo empecilho cotidiano.

Manutenção
Sem especialista, a manutenção de equipamentos também entra na lista de atividades prejudicadas para 36,2% dos entrevistados. A empresária Marta Rios, dona de uma fábrica de biquini, diz que esse problema é evidente. “Tenho duas máquinas adquiridas da China, que facilitaria o corte e costura na malha. Mas não temos gente para manusear e para garantir os cuidados de durabilidade.”

A pesquisa traz uma diagnóstico severo: a falta de mão de obra afeta a todos, mas de forma diferente. Para as pequenas empresas a falta de trabalhador qualificado atinge a expansão da produção, de acordo com 54,5%. Para 66,7% das médias, o maior prejuízo se dá quanto ao aumento da produtividade, seguido da dificuldade em garantir e melhorar a qualidade dos produtos fabricados.

Dentro da indústria, são diversas as áreas atingidas pela falta de trabalhadores qualificados. Segundo os pesquisados, a área mais afetada pelo problema é a produção, especificamente quanto a operadores, engenheiros e técnicos. As áreas de pesquisa e desenvolvimento e vendas/marketing também sentem o reflexo no dia a dia da indústria.

Quanto ao impacto da falta de trabalhador qualificado, novamente há resposta de que as áreas de produção e pesquisa e desenvolvimento são as mais atingidas. Numa escala de 1 a 4, as empresas apontam que o impacto é mais forte no setor de produção, na categoria técnicos, que atingiu a média de 3,09, seguido das categorias engenheiro e operadores, com médias 3,08 e 3,06, respectivamente.

Empresa investe em seus funcionários

Com a escassez de mão de obra qualificada, alavancar salários e ascender funcionários a postos mais elevados é o mecanismo mais usado pelo segmento industrial para lidar com o problema. Dentre os 128 entrevistados pela Fieg, 84,5% realizam capacitação na própria empresa – ação utilizada por 87,9% das pequenas, 75% das médias e 84,6% das grandes. Quase a metade (44,8%), porém, busca capacitação fora.

Parcerias com outras instituições e fortalecimento da política de retenção do trabalhador, por meio da concessão de benefícios, são outras medidas adotadas, assim como o recrutamento de profissionais de outras regiões – utilizado por 22,4% da indústria. Considerando o porte das empresas, 38,5% das grandes, 25% das médias e 15,2% das pequenas se valem de tal prática para amenizar os problemas.

“É curioso notar que menos de 30% dos pesquisados usam incentivos salariais e benefícios para reter os profissionais já qualificados”, comenta o economista da Fieg, responsável pela pesquisa, Cláudio Henrique de Oliveira.

O gerente de Pessoal da Refresco Bandeirante, Juliano Ribeiro, começou há dez anos como office-boy da empresa. Antenada ao mercado, a empresa investiu em sua carreira. Uma bolsa de estudos foi oferecida ao recém-contratado. Já graduado, fez cursos. Participou de palestras e cursou uma pós-graduação. O resultado foi a ascensão ao cargo de gerente e salário dez vezes mais alto. “Sou responsável hoje por contratação, treinamento, remuneração e carreira da Refrescos Bandeirantes, que conta hoje com cerca de 2,6 mil colaboradores. Essa é a melhor estratégia do mercado ter bons profissionais.”

Investir na qualificação de seus empregados, porém, não é fácil. Para 44,9% das empresas, a má qualidade da educação básica, que atrapalha a formação dos trabalhadores é um entrave que impossibilita se investir em educação; para 38,8% das empresas, quando se investe na qualificação, a empresa perde o trabalhador para o mercado.

Sem esse medo, a Belcar Caminhões sai à caça de mão de obra especializada. A diretora administrativa e financeira, Rosana Gedda, destaca que uma das maiores artimanhas são os salários. “Há eletricistas e mecânicos com remunerações mensais acima de R$ 3 mil”, destaca. Pagar mais de cinco salários mínimos, aliás, é uma realidade.

ANÁLISE

É necessário aprimorar a educação

Para responder por mais de 30% do PIB goiano nos próximos anos, a indústria vai ter de se qualificar. Não há como escapar desse problema e o setor sabe disso. Os chineses já deram o exemplo para o mundo: à parte a discussão sobre questões trabalhistas e direitos humanos naquele país, só se alcança níveis altos de competitividade e de participação no PIB com qualificação de mão de obra. Diferente do setor primário, que ainda representa boa parte da economia goiana, a qualificação da mão de obra é a principal matéria-prima para a indústria. Mas se falta tanta gente assim, diante de um cenário de desemprego em vigor, onde está a ponta desse iceberg?

A origem do gargalo está na falta de políticas públicas para a qualificação. O governo federal parece ter entendido isso com a expansão dos Institutos Federais de Ensino Tecnológico em Goiás nos últimos anos. Isso, porém, ainda é pouco diante da gravidade do problema, que pode se transformar no calcanhar de Aquiles da economia nacional em breve. É preciso de ações coordenadas entre municípios, Estado e União, como fez a China.

Sem amadorismo, improvisos ou medidas paliativas, é necessário investir em mais centros de formação técnica, interligados e complementares ao ensino fundamental. Construir escolas, investir em professores, material e carreiras – exatamente como fizeram outros países.

Porém, ainda estamos longe de alcançar esse patamar. Se na educação básica enfrentamos tantos problemas, digamos, básicos, como falta de professor, cadeiras, livros, imagina conseguir aprimorar o ensino técnico ao fundamental? Ainda temos muito a aprender com os chineses quando falamos sobre economia.

Fonte: O Popular

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