Falta de água ameaça produção

Problemas com o fornecimento de água já aumentam os custos e afetam as decisões de investimento de empresas, além de impedirem o aumento da produção agropecuária. Empreendimentos deixam de ser instalados e agricultores são impedidos de instalar pivôs de irrigação para elevar sua produtividade agrícola. O que antes era só uma ameaça, já é algo real, que afeta a competitividade e pode barrar o aumento da produção.

O alerta foi feito ontem, em Goiânia, pelo presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, maior autoridade do País em recursos hídricos e abastecimento de água, durante workshop Cenário Mundial do Uso da Água como Fator de Desenvolvimento Sustentável.

Segundo Braga, a água já é um recurso escasso que começa a ser conhecido como petróleo do século 21, diante do aumento da população e da atividade produtiva, e redução das reservas subterrâneas.

“O aumento da renda significa mais consumo e o problema da água é mais urgente que o da energia”, afirmou Braga. Ele lembra que a discussão sobre água sempre esteve entre as preocupações da classe política, mas as ações demoraram demais. Com um clima anômalo, isso ficou bem mais urgente e essa classe política começa a entender que água é questão vital.

IMPACTOS

O Nordeste já tinha essa consciência por sentir os efeitos da seca há séculos. Mas o problema se alastrou pelo País. “Nunca se viu uma situação de seca dessa envergadura. Há risco real de impactos econômicos e de saúde pública. Sem água e saneamento, as consequências são sérias.”

Braga alerta que a produção agrícola e industrial será cada vez mais afetada, porque a água está nesses processos. Com escassez, há riscos de queda no volume e na qualidade da produção. Para ele, a capacidade de gerenciar incertezas em relação aos riscos de escassez e cheias é essencial.

A irrigação é o primeiro setor no ranking de uso consuntivo da água (retirada direto da fonte), com 66%, seguida pela indústria, com 19%. Mas, de acordo com o secretário de Agricultura do Estado, Antônio Flávio de Lima, Goiás só utiliza 5% de seu potencial de irrigação. Em Cristalina, cidade com maior área irrigada da América Latina, com 627 pivôs (50.722 hectares), que produz 40 culturas diferentes, já existem conflitos relacionados ao uso da água.

O superintendente de Irrigação da Secretaria de Agricultura do Estado, Alécio Maróstica, lembra que a cidade foi surpreendida com a instalação de uma hidrelétrica no Rio São Marcos, que obteve a outorga para o uso da água, sem uma reunião com os agricultores. “Quando vimos, não podiam autorizar mais irrigantes”, destaca.

Para ele, é preciso uma nova modulagem de irrigação, onde o produtor investirá em culturas que deem mais segurança, utilizando menos água. “Já temos testes mostrando que irrigar soja, milho e capim para engorda é um excelente negócio”. É a chamada irrigação complementar e suplementar, que aproveita também o potencial pluviométrico, de acordo com cada época do ano e de plantio de cada lavoura. Com isso, a expectativa é incrementar a área irrigada e o volume de produção.

O presidente da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), Pedro Alves de Oliveira, ressalta que, quando uma empresa está escolhendo um local para se instalar, sempre avalia a viabilidade do fornecimento de água na região e isso afeta sua decisão. Daí, ele alerta para a necessidade de conscientizar a população sobre a importância da preservação e uso comedido. “As próprias indústrias também precisam reciclar seus resíduos”.

INFRAESTRUTURA

O presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, diz que é preciso mecanismos de resistência aos problemas climáticos, como a construção de reservatórios e barragens para armazenar a água. “Quando as chuvas vierem, nós enchemos. Quando ela faltar, utilizamos essa reserva”, destaca. Porém, essa construção envolve toda uma discussão em torno da parte ambiental. Para Benedito, é preciso compatibilizar as coisas. “Se não nos conscientizarmos da necessidade de infraestrutura, a situação ficará absolutamente inviável.”

Benedito Braga alertou para a necessidade de instituições públicas de gestão de recursos hídricos sólidas, envolvimento dos usuários nos processos de gestão, planejamento de curto, médio e longo prazo à nível de bacia hidrográfica, sistema de outorga e fiscalização do uso, além de instrumentos econômicos de gestão, como a cobrança de poluidores e usuários. “A gestão da água é uma atividade que deve ser tratada sob o ponto de vista de política pública.”

Fonte: O Popular

Deixe um comentário