Com 64 novos casos, Goiás lidera lista nacional de trabalho escravo

Adultos e crianças em condições precárias foram resgatados em Olaria de Gouvelândia

Chegou a 2.454 o número de pessoas flagradas vivendo em condições análogas à escravidão em Goiás nos últimos cinco anos. Essa quantidade de trabalhadores foi atingida com o resgate de 64 oleiros que fabricavam tijolos no município de Gouvelândia, na semana passada. Eles viviam de forma sub-humana, inclusive as crianças. Ao todo, foram inspecionadas e interditadas 32 olarias. A soma das verbas trabalhistas rescisórias pagas pelos donos dos estabelecimentos ultrapassou R$ 223,5 mil.

Essa estatística ajuda a manter Goiás no primeiro lugar entre os Estados onde mais são registrados casos de escravidão. Nos últimos três anos, o topo dessa lista pertence aos goianos. A maioria dos casos ocorre em carvoarias, olarias, fazendas, plantações de eucalipto e na produção sucroalcooleira. No entanto, encabeçar esse ranking não significa que a situação em Goiás seja a pior do Brasil, sustenta o coordenador da operação realizada pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), Roberto Mendes.

O auditor fiscal do trabalho afirma que o número de flagrantes em Goiás é grande devido a fiscalização. “No Pará, Mato Grosso e Maranhão existe a dificuldade de chegar aos locais onde há exploração de trabalhadores. Muitas vezes não tem como nem checar as denúncias”, diz. Roberto Mendes considera inclusive que o quadro vem melhorando. A opinião é fundamentada em números. Em 2008, foram 867 resgates de pessoas em condições análogas à escravidão. Nos dois anos seguintes, as quantidades diminuíram para 328 e 343 resgates.

No balanço nacional do trabalho escravo, Goiás também possui 19 empregadores na chamada “lista suja” do Ministério do Trabalho. Tratam-se de patrões que submeteram seus funcionários a situações semelhantes às vividas pelos escravos. Com a inclusão, eles ficam impedidos de obter financiamentos públicos e quaisquer benefícios fiscais. A lista possui 220 empregadores de todo País.
Flagrante
Em Gouvelândia, a ação da SRTE partiu de denúncias sobre trabalho infantil nas olarias, que foram confirmadas. Várias crianças eram obrigadas a acordar às 4 horas e trabalhar no corte dos tijolos até o fim da manhã. Como tinham de ir para a escola cansadas, o desempenho delas estava ruim. O Ministério Público do Trabalho, o Ministério Público estadual e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Quirinópolis souberam da situação e comunicaram a superintendência.

Durante a operação, também foi constatado que praticamente todos os trabalhadores adultos viviam como escravos. Eles não tinham condições mínimas de higiene e conforto. Moravam em estruturas precárias, com cobertura de lona, paredes rachadas, escoradas com pedaços de madeiras e risco de desabamento. Usavam privadas sem fossa sanitária ou faziam suas necessidades no mato. O banho era tomado com baldes e a água para beber era turva.

Do total de 92 trabalhadores, nenhum tinha Carteira de Trabalho, mas 28 firmaram vínculo empregatício após a operação. Eles não tinham garantia de direitos trabalhistas mínimos. Durante o período das chuvas, quando não havia produção, ficavam sem receber. Para sobreviver, faziam empréstimos com os empregadores. Algumas famílias tinham dívidas de até R$ 16 mil. Ainda foram identificados problemas como a falta de fornecimento de equipamentos de proteção para o trabalho e danos à saúde de alguns oleiros devido aos processos arcaicos de produção.

Fonte: O Popular

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